Dia da doula, ou Relato de parto

O nascimento da Maria Luiza foi a experiência mais incrível e libertadora da minha vida, mas também foi a mais dolorida e assustadora. Por mais que eu tenha me preparado, física e psicologicamente, o medo do desconhecido sempre ficou lá, rondando os pensamentos – Como seria, como me sentiria, o que poderia dar errado e, principalmente, se eu daria conta de um parto natural.

Mesmo com todo esse medo eu estava disposta a assumir o controle e ser a protagonista no nascimento da minha filha. Mas eu não conseguiria sozinha, do meu lado estavam pessoas que foram essenciais quando eu pensei que a dor já estava no limite. Se não fosse o apoio do meu marido e da nossa doula, a querida Raquel Oliva, eu teria jogado a toalha, pediria anestesia ou, provavelmente, teria um parto super demorado.

Quando a manhã do dia 15 começou com uma leve cólica, eu não imaginava o que viria pela frente. O dia correu tranquilamente, com contrações leves e irregulares, e eu percebi que desse dia não passava. Ela estava chegando! Então, resolvemos nos preparar para uma madrugada agitada: avisamos a doula, jantamos cedo e fomos para a cama. Enquanto o Beto dormia como um anjo, eu rodava na cama, sentindo as contrações se intensificarem aos poucos, cada vez mais frequentes. Quando a dor começou a sair do controle, acordei o Beto e chamei a Raquel. Eu precisava de apoio.

Quando a doula chegou, o Beto já tinha feito a lição de casa: velas acesas, música calma e deliciosa tocando e um chazinho bem quente preenchia a casa com cheiro de carinho e conforto. Minha sogra, que veio passar uns dias em casa, também já havia acordado e estava acompanhando tudo de perto.

As poucas horas de trabalho de parto que passei em casa, estão bem nebulosas na minha cabeça. Já não lembro direito a ordem de cada acontecimento, mas lembro que sentada na cama era a única posição confortável que consegui. Lembro que apenas tocando o meu ombro e respirando fundo, a Raquel conseguiu me fazer voltar ao ritmo, quando achei que não aguentaria mais uma contração. Lembro do alívio que a massagem do Beto proporcionou; da sensação tomar um banho para diminuir a dor, mas me arrepender amargamente porque ficar em pé era difícil demais para mim. Senti frio e desejei do funda alma voltar para a cama. Cheguei a vomitar de dor, mas agora vejo que era só o meu corpo se limpando, se preparando para o grande momento.

Perto da meia noite as contrações entraram no ritmo, pouco mais de 2 horas depois saiu o tampão e alguns segundos depois eu já queria/precisava fazer força. Contávamos com a tranquilidade de ir para a maternidade de madrugada, mas não contávamos com uma evolução tão rápida. O jeito foi sair correndo (uma pequena pausa na garagem do prédio, para esperar a contração passar) para não correr o risco da Malu nascer em casa.

Chegamos no São Luiz em 15 minutos (mais uma paradinha na porta para outra contração, de pernas cruzadas). Só tivemos tempo de correr para o centro cirúrgico, que a equipe maravilhosa já havia preparado: ar condicionado desligado, luz fraquinha e um banco vazado, caso eu não quisesse parir na maca. Eu preferi o banco, porque não conseguiria subir na maca. Enquanto eu tentava não fazer força, o Beto e a Raquel corriam para chegar à tempo, porque precisaram vestir as roupas do hospital. Só deu tempo dele chegar, se livrar de máquinas fotográficas e afins, se ajoelhar no chão e segurar nossa pequena que estava nascendo, enquanto a obstetra estourava a bolsa, intacta, que ainda a envolvia. Esse momento mágico não tem registro fotográfico, mas está gravado na minha memória para sempre.

Eu acredito que tudo aconteceu tão rápido porque estava amparada por pessoas que acreditavam em mim e ficaram ao meu lado, me deram suporte para me concentrar, me entregar. Eu pude gritar, gemer, chorar e deixar minha filha sair, sem travas, sem bloqueios.

Eu aproveito que hoje é o dia da doula para agradecer a minha: Raquel, nossos encontros foram imprescindíveis para o meu preparo. Também foi importante para ajudar o Beto ter uma participação ativa, saber o que fazer e quando fazer e, principalmente, não se desesperar. Sua mão foi importante quando eu senti medo. E mesmo depois, quando eu enfrentava mais um mundo desconhecido, com aquela pessoa pequena nos braços, eu sabia que podia contar com você para me acalmar. Muito obrigada, do fundo do coração 🙂

Nós e a Raquel em ação. A foto está desfocada porque a Ana Cris pegou a máquina para registrar tudo, mas não sabia que estava no foco manual. Mesmo assim  valeu o registro :)

Nós e a Raquel em ação. A foto está desfocada porque a Ana Cris pegou a máquina para registrar tudo, mas não sabia que estava no foco manual. Mesmo assim valeu o registro 🙂

Esta entrada foi postada em Pessoal.

Um comentário em “Dia da doula, ou Relato de parto

  1. Lindíssimo e intenso depoimento. Chorei, pra variar… 🙂

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